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quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Por uma abordagem multidisciplinar para o Cibercrime


Por uma abordagem multidisciplinar para o Cibercrime

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Ainda que o grande público não se dê conta do tamanho e da importância do problema, é cada vez mais grave a ameaça do crime cibernético (ou cibercrime) às estruturas da sociedade contemporânea. Todos os dias, bilhões de mensagens enganadoras denominadas “phishing emails” atingem os computadores pessoais trazendo malware, programas exploradores de vulnerabilidades em sistemas digitais roubam dados de clientes armazenados em websites de empresas, acusações de ciberespionagem abundam, e diversos países se vêem perplexos diante de eventos de invasão de seus bancos de dados confidenciais às vezes com características de atos de guerra.
No Prefácio do volume “Cybercrimes: A Multidisciplinary Analysis” (Springer, 2011) que publicaram recentemente como organizadores, S. Ghosh & E. Turrini começam indagando o que há de tão importante no cibercrime. Seria apenas mais um tipo de crime tais como os crimes violentos ou financeiros? A resposta, segundo eles, seria tanto sim quanto não. Num certo sentido, o cibercrime é um crime como outro qualquer, pois é uma violação de uma lei criminal. Mas, por outro lado, três seriam as justificativas para não considerá-lo como um crime comum. Primeiramente, um único cibercriminoso de posse de apenas um computador, com o conhecimento apropriado e acesso à Internet, pode causar imenso dano social que antes era considerado imposssível. Depois, o potencial danoso do cibercrime aumenta a cada segundo todo dia, na medida em que as tecnologias de computação se tornam mais ubíquas. E, por último, mas não menos importante, cibercriminosos são frequentemente mais difíceis de apreender do que criminosos tradicionais, tornando a aplicação das leis do cibercrime ainda menos eficaz na prevenção do crime do que a aplicação das leis criminais em geral.
Três são os pilares sobre os quais se fundamentam as contribuições para o livro. O primeiro é que o cibercrime é uma ameaça social severa. A vulnerabilidade endêmica dos sistemas computacionais, as constantes evoluções na tecnologia da computação, a expansão continuada da computação em nossas vidas, e nossos históricos de exagero de conveniência, tudo se reúne num risco grave para a sociedade. Em segundo lugar, a condenação criminal é importante mas, por si só, não é nem de longe uma resposta à altura da ameaça. E, finalmente, precisamos de uma abordagem multidisciplinar, holística para a prevenção e a mitigação do cibercrime com o foco em três vertentes de ação: elevar o custo do ataque; aumentar o risco do ataque; e reduzir a motivação do ataque.
Em seu livro “Principles of Cybercrime” (Cambridge University Press, 2010) J. Clough adota uma classificação do cibercrime em três categorias: (i) crimes por computador; (2) crimes facilitados pelo computador; e (3) crimes apoiados pelo computador. Tal forma de classificação, ou uma variante dela, tem sido utilizada nos países da Commonwealth tais como Austrália, Canadá, e Reino Unido, assim como em nível internacional. A classificação objetiva, no final das contas, buscar uma resposta à questão se o cibercrime é uma forma inteiramente nova de ofensa, sem qualquer análogo no mundo offline, ou se é simplesmente crime antigo cometido de novas maneiras. O próprio autor assume que sua resposta seria: ambos.
Por outro lado, o receio de que as novas formas de crime acarretem em novas formas de policiamento e novas formas de vigilância, e, em última instância, a novas ameaças às liberdades civis, J. Barkin et al. em “Cybercrime: Digital Cops in a Networked World” (New York Univ Press, 2007) apresentam contribuições em cinco categorias conforme: (i) as novas cenas de crime; (ii) as novas formas de crime; (iii) os novos métodos de aplicação da lei; (iv) as novas formas de vigilância digital e prevenção do crime; e (iv) os novos procedimentos que as cortes e as legislaturas terão que adotar para lidar com as ameaças à segurança na Internet.
Em sua apresentação de um curso na New York Law School intitulado “Cybercrime, Cyberterrorism, and Digital Law Enforcement”, K. A. Taipale chama a atenção para o fato de que a emergência de sociedades modernas baseadas na informação nas quais o exercício do poder econômico, politico e social cada vez mais depende das oportunidades para acessar, manipular, e usar a informação e a infraestrutura de informações tem criado oportunidades para novos crimes e novas ameaças à sociedade civil e à segurança global, assim como para novas respostas para as autoridades responsáveis pela aplicação das leis e pela segurança nacional. O fato é que o mundo interconectado tem dado surgimento a novos crimes e novas respostas, e se faz preciso entender como as tecnologias da informação e da comunicação têm se tornado, ao mesmo tempo, uma ferramenta, um alvo, e um local de atividade criminal e de ameaças à segurança nacional, assim como um mecanismo de resposta.
São muitas as questões que surgem desse cenário: Como as nações regularão a conduta criminal além das fronteiras geográficas e políticas tradicionais? Quais são as expectativas razoáveis de privacidade no ciberespaço? Como o controle está se deslocando dos mecanismos tradicionais da aplicação da lei para novos regimes regulatórios, incluindo tecnologia?
Em seu relatório “Mobilizing For International Action” do “Second Worldwide Cybersecurity Summit”, realizado em 1 e 2 de Junho de 2011 em Londres, o EastWest Institute (EWI) assim descreve sua visão do desafio da cibersegurança: “À medida em que a inovação tecnológica se popularizou, a economia globalizada tem se tornado cada vez mais digitalizada. A cada dia dependemos mais da web e de sua infraestrutura, desde os cabos submarinos que carregam 99% do tráfego intercontinental da Internet até nossos dispositivos móveis. O cibercrime explorando essas tecnologias está em alta, mas os acordos, padrões, políticas e regulações de que precisamos para prover segurança ao ciberespaço vão ficando cada vez mais para trás. De modo a rastrear cibercriminosos, proteger usuários da Internet e garantir a segurança da infraestrutura crítica, temos que lidar com a crescente lacuna entre a tecnologia e nossos controles sobre ela. Prover segurança ao ciberespaço é um desafio global – desses que não podem ser resolvidos por uma única empresa ou país sozinho.” Foi justamente motivado por esse cenário que o EWI formou o Cyber40, uma coalizão de representantes dos países mais bem servidos em termos de tecnologia digital para trabalhar no sentido de formatar as “regras da estrada” para o tratamento de ciberconflitos e cibercrimes através da cooperação internacional.
Além da participação de representantes de 43 países, entre eles líderes da indústria de tecnologia da informação e da comunicação, embaixadores e autoridades da área de defesa de vários países tanto do Ocidente quanto do Oriente, o encontro de Londres contou com a participação do jornalista inglês Misha Glenny, mais conhecido por seu livro sobre o crime organizado internacional “McMafia: A Journey Through the Global Criminal Underworld” (Vintage, 2008), autor também de um livro a ser publicado sobre o submundo do cibercrime: “DarkMarket: Cyberthieves, Cybercops and You” (Knopf , Outubro 2011). Em sua palestra “The Nexus of Cyber Crime, Espionage and Cyber Warfare”, Glenny argumenta que, apesar dos investimentos multibilionários em cibersegurança, um de seus principais problemas tem sido amplamente ignorado: quem são aquelas pessoas que escrevem os códigos maliciosos? O fato é que, apesar da ampla disponibilidade de kits de “faça você mesmo ataques cibernéticos”, a participação dos especialistas no assunto, isto é, os hackers, é fundamental para o sucesso das operações. Segundo Glenny, o que ocorre, no entanto, é que, apesar do hacker ser elemento absolutamente essencial, eles são apenas um elemento numa empreitada cibercriminosa, e, além de, em grande parte, não terem motivação financeira, não raro se constituem na parte mais vulnerável. Apesar disso, pouco ou nada se faz no sentido de buscar um melhor entendimento sobre o perfil do hacker. Exceção notável, conta Glenny, é o “Hackers Profiling Project” do Institute of Security and Open Methologies (ISECOM) de Torino (Itália) iniciado em Setembro de 2004, com apoio da ONU.
Uma das conclusões até certo ponto surpreendentes a que chega Glenny após um contato direto com diversos personagens marcantes do mundo do cibercrime é a de que há uma alta incidência de hackers com características de autistas ou, em alguns casos, consistentes com a síndrome de Asperger. Segundo  Simon Baron-Cohen, professor de psicopatologia do desenvolvimento na Cambridge University, certas disfunções dos autistas podem se manifestar no universo do hacking e da informática como habilidades espetaculares, tais como ocorre com alguns célebres autistas com excepcionais habilidades matemáticas a exemplo do savant inglês Daniel Tammet. Daí, é preciso encontrar maneiras de oferecer apoio a esses “fuçadores” (significado original de “hackers”) de tanto talento. Como diz Glenny, se confiarmos apenas no sistema jurídico criminal e na ameaça de sentenças punitivas, tal como parece ser a norma no momento, estaremos criando um monstro que não conseguiremos domar.
Ao que tudo indica, a mera aplicação de sanções não vai ser suficiente para minimizar ou mitigar essa ameaça severa que é o cibercrime. É preciso buscar uma melhor fundamentação de uma abordagem multidisciplinar ao problema, e, ao mesmo tempo, desenvolver ferramentas para avaliar a eficácia dos métodos sugeridos no volume organizado por Ghosh & Terrini para cada uma das três vertentes de ação.

Ruy José Guerra Barretto de Queiroz, Professor Associado, Centro de Informática da UFPE

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

O desafio do combate à fraude de clique



O desafio do combate à fraude de clique

TER, 06 DE SETEMBRO DE 2011 23:46



Um estudo da PwC de 2009 intitulado “Measuring the effectiveness of online advertising” já dizia que nos cinco anos anteriores os recursos alocados à mídia de Internet haviam crescido espetacularmente, prevendo que em 2010 a Internet representaria 16% do gasto total mundial com anúncios, e que os números poderiam atingir 21% nos quatro anos seguintes. Uma das constatações foi a de que esse crescimento estaria sendo significativamente alimentado por ferramentas de busca e de “performance” tais como marketing de afiliados, e-mail, websites de comparação, etc., muito embora o chamado anúncio de display (em inglês, “display advertising”) continuasse a representar uma grande parcela dos orçamentos de propaganda online. Entre as tendências que estariam alimentando esse boom estariam o aumento no uso da web reforçando o papel da Internet não apenas na recomendação como também na preparação dos consumidores para realizar compras e recomendações, e os desenvolvimentos nos formatos e técnicas de propaganda dirigida que acabam ajudando a tornar as campanhas publicitárias mais relevantes e mais comunicativas.

Entre as formas de anúncio online estão os anúncios contextuais em páginas de resultados de engenhos de busca, os banners, anúncios em mídia interativa, anúncios em redes sociais, anúncios intersticiais, anúncios em videogames, anúncios classificados online, redes de anunciantes e marketing por correio eletrônico. Uma das grandes vantagens do anúncio online é sua publicação imediata, além do fato de que o conteúdo não fica limitado por geografia ou por tempo. Por outro lado, a eficiência do anúncio atinge níveis bem superiores às formas mais tradicionais de propaganda pois permite a customização e a interatividade de anúncio,s e a medição mais precisa do seu impacto. Embora não esteja imune às intempéries da economia mundial, o negócio do anúncio online ainda é um dos que mais crescem no momento: para o ano de 2012 a Jupiter Research estima que somente nos EUA o investimento em propaganda online deve atingir a casa dos 34,5 bilhões de dólares.

O fato concreto é que, hoje em dia, anunciar pela Internet é uma das formas mais rentáveis, tanto para pequenas quanto para grandes empresas, de realizar campanhas de marketing com o objetivo de atingir diversos tipos de clientes. Um advertiser de Internet (por exemplo, o eBay) provê os seus anúncios a um representante (por exemplo, o ValueClick), reserva uma determinada quantia de dinheiro e se compromete a pagar uma comissão para determinadas ações dos usuários do serviço do representante, como, por exemplo, clicar em um anúncio, realizar uma compra, ou dar um lance em um leilão. Os publishers de Internet (por exemplo, o MySpace.com), motivados pela comissão paga pelos advertisers, procuram os representantes com o objetivo de contratá-los para exibir os anúncios nas suas páginas Web, e obterem assim uma parte da comissão. O ponto principal desta relação são os representantes, que atuam como mediadores entre os publishers e os advertisers.

Sempre que um usuário da Internet visita a página de um publisher, este usuário é associado a um dos servidores do representante. Este servidor escolhe um conjunto de anúncios e exibe este conjunto na página de publisher, que está sendo exibida para o usuário em seu navegador. Se o usuário clicar no anúncio no site do publisher, esta ação será associada ao servidor do representante (que exibe o anúncio na página do publisher), que salva o clique em um histórico, para cobrança posterior, e direciona o usuário à página do advertiser cujo anúncio foi clicado.

Uma vez que os publishers lucram com os eventos de clique nos anúncios dos advertisers, é possível observar um incentivo para que publishers desonestos aumentem o número de cliques que seus sites geram. Além disso, advertisers desonestos simulam cliques nos anúncios de seus concorrentes com o objetivo de esgotar seus recursos destinados a anúncios e marketing. O mundo da publicidade online rejeita estas práticas, conhecidas como fraude de clique. A fraude de clique resulta em má reputação para os representantes, e há diversos casos de pagamento de multas para advertisers. O fato é que esse tipo de fraude põe em risco toda a indústria de anúncios pela Internet.

A fraude de clique tem sido uma preocupação para representantes de anúncios desde a sua concepção. Os números são difíceis de quantificar; existem diversas formas de se estimar a proporção de cliques falsos, que variam de 10% a 50%. Um estudo amplamente citado da MarketingExperiments.com, uma ferramenta de pesquisa em marketing online, relatou que 29,5% dos cliques em três campanhas experimentais do Google eram fraudulentos. Mesmo com números potencialmente tão expressivos, as empresas de busca e muitos dos seus clientes vêm defendendo que o problema em suas redes está sob controle. Entretanto, alguns observadores do mercado de cliques online, como a Holcomb, acreditam que a fraude de clique traz prejuízos da ordem de bilhões de dólares e, como dito anteriormente, possuem o potencial de causar danos importantesà indústria cimo um todo. Independentemente do número exato, a fraude de clique hoje está impregnada no negócio de anúncios pela Internet, e, muito embora as ferramentas de busca procurem se defender de diferentes maneiras, os fraudadores tornam-se cada vez mais sofisticados e os programas utilizados para automatização da fraude são cada vez mais complexos, disfarçando, inclusive, a origem dos cliques.

As pesquisas realizadas nesta área, em sua grande maioria, investigam a fraude do publisher, já que ela pode ser generalizada para a fraude do advertiser. Além disso, tais pesquisas invariavelmente discutem a detecção da fraude através de diversos métodos, tais como: a abordagem criptográfica, técnicas de análise de dados, ferramentas para detecção de fraude, análise de tráfego, e algoritmos de força bruta. Entretanto, todos estes métodos são técnicas de detecção, e tratam a fraude depois que ela ocorreu. Como já dito anteriormente, os programas têm se tornado cada vez mais complexos e a detecção da fraude tem se tornado um problema de difícil resolução. Por estas razões, é preciso desenvolver uma metodologia focada na prevenção da fraude de clique, de maneira que a detecção se faça desnecessária, ou no mínimo secundária. Com efeito, encontra-se em pleno desenvolvimento no contexto do grupo de Segurança Computacional do Centro de Informática da UFPE um esquema que envolve uma nova entidade, o comprovador, que por seu turno provê credenciais a clientes que respondam a um teste. Tais credenciais têm o papel de permitirque o representante seja capaz de distinguir os cliques válidos, realizados por humanos, de cliques originados do trafégo em geral. O comprovador é uma forma de classificar o clique, de maneira fortalecer a heurística de isolamento de cliques fraudulentos.A técnica é complementar a técnicas existentes para filtragem de cliques para validação.

No final das contas, trata-se de um método de prevenção de fraude de clique, o que vai ao encontro da grande maioria dos métodos de combate àfraude de clique atuais, que tratam a fraude após a ocorrência, por meio da detecção de cliques fraudulentos. Contrariamente aos métodos atuais de filtragem, o esquema em desenvolvimentose baseia no uso de testes de diferenciação entre humanos e computadores, através de CAPTCHAs. A resposta destes testes têm a função de servir de atestado de validade dos cliques, que após considerados “bons”, são contabilizados.



Rodrigo Alves Costa, Doutorando em Ciência da Computação, Centro de Informática da UFPE


Ruy José Guerra Barretto de Queiroz, Professor Associado, Centro de Informática da UFPE

sábado, 30 de julho de 2011

A Personalização da Esfera Pública e a Bolha de Filtros


A Personalização da Esfera Pública e a Bolha de Filtros

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Vista como uma fonte diversificada, plural e aberta de informações sob os mais diversos pontos de vista, a internet nos remete a uma imagem de uma enorme biblioteca, com serviços como Google propiciando um mapa universal. Presumimos que a internet seja um grande instrumento para nos conectar e nos aproximar, e para ajudar a criar um mundo melhor, verdadeiramente mais plural e mais democrático. Não obstante, alguns indícios nos levam a suspeitar de que no momento a realidade pode ser bem diferente. Os anúncios que nos são exibidos, assim como os resultados de busca que obtemos na internet, e até mesmo as notícias veiculadas nos portais de grandes conglomerados jornalísticos e agregadores de notícias estão cada vez mais baseados em critérios automatizados de seleção: os chamados algoritmos de classificação estão personalizando o que chega até cada um de nós, e o mais grave é que não conhecemos e nem sequer somos alertados sobre os critérios adotados. É como se estivéssemos vivendo numa bolha de informações que proíbe a entrada de visões e perspectivas que divergem das nossas.
A personalização é viável devido sobretudo às tecnologias de rastreamento da navegação na rede. O fato é que, para melhorar a relevância dos anúncios e garantir uma melhor experiência online ao usuário, anunciantes e empresas de serviços na internet, aí incluídos busca, redes sociais, e-mail e comércio eletrônico, todos fazem uso de tecnologias de rastreamento das atividades do usuário por meio da gravação de pequenos arquivos conhecidos como “cookies” no sistema de arquivos do usuário. A partir dos dados gravados nos cookies é possível construir um perfil “comportamental” e demográfico do usuário, e daí personalizar sua experiência online.
O fenômeno da personalização da esfera pública já havia sido analisado por Cass Sunstein, influente jurista americano e hoje administrador do “Office of Information and Regulatory Affairs” do governo Obama, em seu livro “Republic.com” (Princeton Univ Press, 2002). Argumentando que a democracia depende de experiências compartilhadas e requer que os cidadãos sejam expostos a tópicos e idéias que não teriam escolhido antecipadamente, Sustein járevelava preocupação com os possíveis efeitos negativos trazidos pela internet com a facilidade de personalização do noticiário e a criação do que ele chamou de “Daily Me” (“Diário Eu”): “no ciberespaço, já temos a capacidade de filtrar tudo exceto o que desejamos ver, ouvir e ler”. Numa espécie de segunda edição reformulada sob a ótica da chamada “internet interativa”, Sustein em “Republic.com 2.0” (Princeton Univ Press, 2009)defende que, ao gravitar apenas em torno de blogs, podcasts e outras mídias sociais que reforçam suas próprias visões, o cidadão vai se privando de entrar em contato com perspectivas diferentes, e o sentido de “empoderamento” pessoal posteriormente associado a “liberdade” acaba alimentando o efeito “câmara de eco”, que substitui um sentido de unidade democrática com polarização acelerada. E essa tendência de se isolar em “casulos de informações” pode representar um dos efeitos mais perniciosos da internet sobre a esfera pública, argumenta Sunstein.
Se há alguma legitimidade na preocupação de Sustein como excesso de personalização que os próprios cidadãos estariam promovendo através do uso da tecnologia, imagine o cenário em que a personalização é feita por máquinas, algoritmos. Eli Pariser, ativista e coordenador da organização não-governamental  americana de cunho político MoveOn.org, em palestra no portal TED.com intitulada “Beware online ‘filterbubbles’” (Março 2011) chama a atenção para o fato de que, à medida que as empresas da web buscam incessantemente adaptar seus serviços (aí incluídos noticiários e engenhos de busca) às preferências pessoais de cada um dos seus clientes, surge um perigoso efeito colateral: o cidadão se vê preso numa “bolha de filtros” e não é exposto a informações que poderiam questionar ou ampliar sua própria visão de mundo. E o resultado é que “os filtros de personalização servem a um tipo de autopropaganda invisível, nos doutrinando com nossas próprias idéias, amplificando nossos desejos por coisas que nos são familiares e nos deixando cegos aos perigos à espreita no território negro do desconhecido.”
Como resultado de suas reflexões sobre as implicações sociais dessa bolha de filtros,Pariser, em seu livro “The Filter Bubble: What the Internet Is Hiding from You” (The Penguin Press HC, Maio 2011), chama a atenção para o fato de que, diferentemente do que se presume,os resultadosde uma busca no engenho da Google não são os mesmos para todos os usuários, nem idênticos para o mesmo usuário em momentos distintos. Desde Dezembro de 2009 que o algoritmo da Google de ordenação dos resultados usa diversas variáveis (vide o post “Personalized Search for everyone” publicado no “The Official Google Blog” em 04/12/2009), mais de 50 segundo fontes seguras, que envolvem desde o tipo de computador que está sendo usado, a história de navegação associada àquele usuário, até o tipo de navegador através do qual a busca foi solicitada, incluindo o local associado ao endereço de IP da máquina do usuário. Assim, uma busca sobre “células tronco”, por exemplo, poderia produzir resultados completamente diferentes  dependendo da posição de quem fez a busca, se entusiasta ou ativista contrário.Igualmente, uma busca por “prova das mudanças climáticas”pode levar a resultados bem distintos para um ambientalista, por um lado, e para um executivo de uma empresa de produção de energia considerada poluente, por outro lado.
Isso não ocorre apenas nos engenhos de busca. Nas redes sociais a personalização é ingrediente fundamental na fidelização do cliente. Alguém que tem centenas de amigos no Facebook, por exemplo, vai ver as notícias de mural provenientes apenas dos mais chegados, pois o algoritmo por trás do serviço da Facebook se baseia nas interações, nos cliques e nas declarações de “curtir” realizadas pelo usuário para ser capaz de fazer uma previsão do que, e de quem, mais lhe interessa. Algo semelhante faz o Yahoo! News para descobrir qual notícia mais interessa ao usuário com aquele perfil, a Netflix para conseguir recomendar o filme que mais se encaixa nos gostos do cliente com aquele histórico, a Amazon para adivinhar o livro ou produto que interessaria a alguém com perfil semelhante, a Zappos para encontrar que tipo de sapato está dentro das preferências, etc. Dizendo-se preocupado em “garantir que esses algoritmos carreguem um sentido de vida pública, um sentido de responsabilidade cívica,” Pariser clama por um ativismo cibernético que busque forçar essas empresas a cumprir o que muitas delas declaram como slogan de missão e de boas intenções (“Do no evil”, isto é, “Não seja do mal”, é o motto da Google). Lembrando a máxima de Melvin Kranzberg (1917–1995), um dos fundadores da Society for theHistoryof Technology, de que “tecnologia não é do bem nem é do mal, nem é neutra”, parece imperioso fazer o possível, seja por regulação governamental ou por pressão ativista não-governamental, que os melhores valores de uma sociedade aberta e democrática sejam refletidos no desenho da tecnologia.
Dizendo-se esperançoso de que a internet ainda venha a cumprir a promessa da interconexão global da humanidade, Pariser reconhece que, embora se revelando perfeita no apoio à formação de grupos de pessoas com interesses comuns, será preciso muito ativismo para garantir que a internet seja de fato berço do verdadeiro espírito democrático de tolerância e convivência plural. Como diz Evgeny Morozov em sua resenha do livro de Pariser (“YourOwnFacts”, New York Times, 10/06/2011), além do alerta para os perigos do excesso de personalização, “The Filter Bubble” merece aplausos pela advertência para o crescente poder dos intermediários da informação cujas regras, protocolos e motivações nem sempre são visíveis.
Ruy José Guerra Barretto de Queiroz, Professor Associado, Centro de Informática da UFPE

domingo, 27 de fevereiro de 2011

A Esfera Pública Interligada e o Jornalismo do Futuro


A Esfera Pública Interligada e o Jornalismo do Futuro

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Soa cliché, mas vivemos de fato numa era em que o acesso à informação é o mais democráticode que se tem notícia na história da humanidade. Não obstante, o que tem se revelado mais conseqüente é a ampliação do acesso uns aos outros, de ser humano para ser humano, tudo isso propiciado pela internet e pela telefonia móvel.  Como já previa Clay Shirky em artigo escrito em Setembro de 2010 sobre a importância das mídias sociais no exercício da liberdade de associação e na coordenação de movimentos sociais (“The Political Power of Social Media: Technology, thePublicSphere, andPoliticalChange”, publicado no número de Jan/Fev 2011 da revista ForeignAffairs), temos historicamente exagerado no valor que atribuímos ao acesso à informação, ao mesmo tempo em que temos subestimado o valor do acesso uns aos outros.
É justamente nesse espírito que Shirky critica a proposta do governo americano, anunciada na palestra de Hillary Clinton em Janeiro de 2010 sobre liberdade na internet, de concentrar os esforços quase que exclusivamente no desenvolvimento e disseminação de ferramentas para contornar mecanismos de censura ao acesso utilizados por países que praticam a filtragem de conteúdo na internet. A mera recuperação do acesso à informação não se traduz necessariamente em maior democratização, pois a liberdade de associação é fundamental, e nisso as redes sociais e até mesmo o celular têm uma importância decisiva. A seqüência de movimentos populares que começou no Irã em 2009 e hoje se alastra pelo mundo árabe tem mostrado a força da nova mídia. Ao invés de uma arquitetura de-cima-para-baixo tal qual as mídias tradicionais, onde um grupo relativamente pequeno produz conteúdo para a grande massa consumir, a internet como ferramenta de comunicação e de associação põe o poder no indivíduo. “Na internet, todos têm voz”, como disse Hillary Clinton no seu segundo discurso sobre liberdade na internet, proferido em 15/02/11 na George Washington University. Para usar as palavras de Jose Antonio Vargas em seu artigo “Egypt, The Age Of Disruption And The 'Me' In Media” (The Huffington Post, 07/02/11), na internet “o indivíduo pode ser ouvido, pode revidar, o que redefine o nosso sentido de comunidade – o ‘eu’ facilmente se eleva a ‘nós’”.
Segundo YochaiBenkler, autor do influente tratado “The Wealth of Networks: How Social Production Transforms Markets and Freedom” (Yale University Press, 2007), a internet como tecnologia, e a economia da informação interligada como um modelo social e organizacional de informação e produção cultural, juntas abrem caminho para o surgimento de uma plataforma alternativa à mídia de massas para a esfera pública. Seria o que vem sendo chamado de “esfera pública interligada” (em inglês, “networkedpublicsphere”), e que se caracterizaria por não dispor de pontos óbvios de controle ou de exercício da influência, seja vindo do estado ou de corporações. É como se fosse uma espécie de inversão do modelo de mídia de massa no sentido de que a esfera pública interligada seria movida fortemente por aquilo que agrupamentos densos de usuários consideram intensamente interessante e envolvente, ao invés de pelo que grandes parcelas a consideram levemente interessante na média. Nesse sentido, avalia Benkler, a promessa é a de que a esfera pública interligada deverá propiciar uma plataforma para que cidadãos engajados cooperem e contribuam com observações e opiniões, e venha a servir como um cão de guarda sobre a sociedade num modelo de produção baseada em pares. 
Um exemplo se destaca. Com todo o seu papel nos movimentos populares que se desenrolam no mundo árabe amplamente reconhecido, sobretudo no que diz respeito à mobilização e à associação de grupos descontentes com a situação política vigente, a Facebook é, sem dúvida, a rede social mais explicitamente associada a nossas identidades individuais e coletivas. Uma espécie de diretório universal de pessoas mundo afora, a Facebook se revela mais do que uma simples ferramenta tecnológica de compartilhamento de informações, pois lá todo cidadão privado tem uma identidade pública.
Ainda segundo Benkler, os elementos fundamentais da diferença entre a economia da informação interligada e a mídia de massa são a arquitetura da rede e o custo de se tornar um produtor (ao invés de consumidor) de discurso.O primeiro elemento é a mudança de uma arquitetura baseada num ponto focal de onde saem as ligações para todos os destinos na mídia de massa (paradigma “hub-and-spoke”), para uma arquitetura distribuída com conexões multidirecionais entre todos os nós no ambiente da informação interligada. O segundo elemento é a eliminação prática dos custos de comunicação como uma barreira para o falar através das fronteiras associacionais. Tomadas em conjunto, tais características têm provocado mudanças radicais na capacidade de indivíduos, por si sós ou em parceria com outros, participarem ativamente na esfera pública, ao invés de se comportarem como leitores passivos, ouvintes ou telespectadores.
Em entrevista ao programa “On The Media” da radio americana NPR em 16/07/10, discutindo o futuro da produção e a troca de informações na sociedade contemporânea,Benklerlembra como a economia da informaçãoprofissional, tradicionalmente unidirecional e demandante de altos volumes de capital, e que dá sustentação aos grandes jornais americanos há mais de 150 anos, está dando lugar a um modelo cooperativo, de baixa demanda de investimento em termos de capital, e multidirecional no sentido de que não dispõe de um controle centralizado da produção da informação. Já se observa uma transição para um sistema misto no qual cidadãos interessados em contribuir para o bem comum decidem combinar sua disponibilidade de tempo e sua expertise com a colaboração de profissionais da informação para desvendar e disseminar informações importantes para a sociedade civil. Exemplo concreto é a organização independente sem fins lucrativos dedicada ao jornalismo investigativo chamada ProPublica, fundada em 2007, premiada com o prestigioso Pulitzer Prize em 2010 pela cobertura do trabalho humanitário de um hospital de Nova Orleans durante a tragédia provocada pelo furacão Katrina.
Em artigo intitulado “A FreeIrresponsible Press: WikiLeaks and the Battle over the Soul of the Networked Fourth State” (08/Fev/11, a ser publicado no “Harvard Civil Rights-Civil Liberties Law Review”), Benkler chama a atenção para o fato de que o chamado “quarto poder” americano está em meio a uma profunda transformação, cujas raízes se encontram nos anos 1980’s, mas cujo ritmo, intensidade e direção têm sido modificados nessa última década. O papel da internet nessa transformação é fundamental, argumenta Benkler, sobretudo através da adoção de meios de produção descentralizada da informação, dando origem a novas oportunidades para que modelos de empreendimentos jornalísticos que não são baseados nem no mercado nem no estado possam desempenhar um novo e significativo papel na produção da esfera pública.
Aos receosos de uma mudança radical e na possível ameaça a um dos principais instrumentos democráticos que é a imprensa livre, Benkler lamenta que não há como prever o que deverá surgir dessa transformação na indústria do jornalismo, mas ao mesmo tempo traz uma mensagem de otimismo e de civilidade: “devemos cuidar para que haja algum conjunto de pessoas que são profissionais, que investigarão de uma maneira sustentada, e que eles possam sobreviver sem necessariamente ser milionários”. E continua: “Precisamos da capacidade de extrair informação de entidades poderosas contra a vontade delas, de modo que precisamos de alguma forma de mecanismos de extração e preservação de vazamento.” Talvez não seja necessário usar profissionais para isso, e possivelmente o melhor caminho seja um sistema distribuído de produção e colaboração online baseada em pares por pessoas que se apresentam como voluntários por pura convicção, conclui Benkler.
Em 2010, quatro anos após sua fundação, a organização ativista pela transparência em governos chamada Wikileaks, liderada pelo ex-hacker e andarilho australiano Julian Assange, se põe no centro de uma verdadeira tempestade em torno do papel do indivíduo na esfera pública interligada. Antes de qualquer julgamento de valor, é preciso reconhecer, como o faz YochaiBenkler, que se trata de uma tendência em função de todo um processo de democratização trazido pela internet. 
Segundo a ElectronicFrontier Foundation, já são vários os sites “boca-no-trombone” (em inglês, “whistleblower”): (i) OpenLeaks, fundado pelo ex-braço-direito de Assange, Daniel Domscheit-Berg; (ii) LocalLeaks, servindo a cerca de 1.400 jornais americanos; (iii) Rospil, criado pelo jornalista Alexei Navlny; (iv) RuLeaks, uma espécie de versão russa do WikiLeaks; (v) GreenLeaks.org, organização sem fins lucrativos que provê uma plataforma para vazamento de informações sobre o meio-ambiente; (vi) GreenLeaks.com, empresa de mídia que também publica informações sobre o meio-ambiente. Além desses, ainda há a intenção declarada de organizações tradicionais como o New York Times e o Al-Jazeera, de disponibilizar suas próprias plataformas de recebimento de informações dos chamados "whistleblowers".
Sob forma de conclusão e de previsão sobre o jornalismo do futuro, Benkler cita o The Guardian: “o jornalismo do futuro provavelmente será um novo modelo de cooperação entre os elementos sobreviventes do quarto poder tradicional, de mídia de massa, e seus modelos interligados emergentes”. Mas lembra que a tendência é a de que a transição não seja nada suave.
Ruy José Guerra Barretto de Queiroz, Professor Associado, Centro de Informática da UFPE