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segunda-feira, 23 de março de 2009

O Sistema Nervoso Social

OPINIÃO / ARTIGO

O sistema nervoso social

POSTADO ÀS 08:55 EM 23 DE MARÇO DE 2009

Por Ruy José Guerra Barretto de Queiroz

Em recente e provocativo texto no portal Forbes.com (“The Rise of the Social Nervous System”, 09/03/09), Joshua-Michéle Ross (vice-presidente da O’Reilly Radar) levanta a possibilidade de estar sendo formado um “sistema nervoso social” no mundo virtual que comanda as ações no mundo físico. Soa quase como uma confirmação de uma observação de Arthur Clarke (escritor de ficção científica, autor de “2001 Uma Odisséia no Espaço”) num artigo apresentado num congresso internacional de astronáutica em 1961 com o título sugestivo “As conseqüências sociais dos satélites de comunicação”: “o que estamos construindo é o sistema nervoso da humanidade, que vai interligar toda a raça humana, para o bem ou para o mal, numa unidade a qual nenhuma época anterior poderia ter imaginado”.

Visão semelhante da sociedade humana como um superorganismo propôs Francis Heylighen em  "Towards a Global Brain. Integrating Individuals into the World-Wide Electronic Network", (no livro “Der Sinn der Sinne”, Uta Brandes & Claudia Neumann (Ed.), Steidl Verlag, Göttingen, 1997) ao defender que as mudanças mais importantes na sociedade moderna não se processam no âmbito dos indivíduos em si (tornando-se ou não mais semelhantes a máquinas ou robôs) mas sim no domínio “entre” indivíduos, na tecnologia, e nos padrões de comunicação e de relações sociais que conectam os indivíduos. Segundo Heylighen, à medida que esses relacionamentos tornam-se mais fortes, tende-se a uma integração das pessoas num sistema cibernético supra-indivíduo. Tal qual uma idéia que remonta aos gregos, é possível olhar para a sociedade como se ela própria fosse um organismo, consistindo de outros organismos.

E, justamente, para chegar a sua conclusão, Ross toma como ponto de partida a observação de que a internet hoje conecta a humanidade no que ele chama de “mente-colméia”: não há um recanto da vida americana moderna que não seja tocado pela tecnologia, e nenhuma tecnologia é mais transformadora que a internet. E a razão é simples: a internet é, no fundo, uma rede de comunicações, e a comunicação é o fundamento da sociedade, dos negócios, e dos governos. Devidamente posta em escala, a comunicação muda o mundo. Somos hoje pelo menos 1,6 bilhão conectados através do computador, e 3 bilhões de dispositivos móveis que tocam a internet. 

A ascensão de tecnologias “sociais” – tais como wikis, blogs, twitter, SMS, e redes sociais (Orkut, MySpace, Facebook) – significa que as barreiras à participação em todo o planeta (em termos de custo, acesso e habilidades exigidas) estão rapidamente se aproximando de zero. À medida que mais pessoas se conectam através do ciberespaço, assistimos a uma aceleração na forma como a internet é usada para coordenar ações e fornecer serviços a partir da ação humana. “Estamos testemunhando o surgimento de um sistema nervoso social”, conclui Ross. E segue adiante considerando três casos emblemáticos: a resposta à emergência verificada no caso dos ataques terroristas de Mumbai, a coordenação de ações na campanha política de Obama, e a previsão do espalhamento do vírus de gripe através de dados de busca coletados pela Google.

No primeiro caso, o uso do sistema de comunicação de tempo real que permite a combinação da internet com a telefonia celular chamado Twitter foi fundamental no desenrolar das ações em terra no caso dos ataques de Mumbai: trata-se de um ponto chave, segundo Ross, pois as trocas de mensagens no espaço virtual influenciaram diretamente o comportamento físico no mundo real, e isso caracteriza o sistema nervoso social na medida em que ele coordena (e às vezes dirige) a atividade física no mundo. Durante o ocorrido, enquanto as pessoas trocavam mensagens curtas (“tweets”, i.e., mensagens de até 140 caracteres) sobre o movimento dos terroristas, a polícia, que também se servia do sistema Twitter, pedia que as pessoas não circulassem mensagens sobre seus próprios movimentos.

No caso seguinte, a vitoriosa campanha de Obama estabeleceu marcos sem-precedentes no que diz respeito à influência da conectividade nas ações políticas do mundo real: à medida que os partidários que trabalhavam como observadores nos locais de votação constatavam que um eleitor já havia votado, entravam com o nome do eleitor no sistema de informações da equipe de campanha, e esse eleitor não mais seria procurado em vão: nada de perder tempo em contactar quem já votou.

Finalmente, até mesmo uma melhor previsão da disseminação do virus da gripe baseada na demografia das buscas por palavras-chave relacionadas à doença é hoje uma realidade: a Google descobriu que termos de busca são bons indicadores da atividade de uma doença (gripe, por exemplo), e o sistema “Google Flu Trends” usa os dados de busca agregados para estimar a ocorrência e o espalhamento geográficos da doença com até duas semanas a mais de antecedência que os métodos tradicionais de monitoramento epidemiológico.

Como diz Tim O’Reilly em um artigo sobre o texto de Ross (“The Social Nervous System Has More Than One Sense”, O’Reilly Radar, 12/03/09), todos esses exemplos seguem a narrativa “Web 2.0” (i.e., sistemas de internet com mecanismos interativos), de que, na era da rede, a competência chave é angariar inteligência coletiva. E segue lembrando que Ross vai mais além ao perceber que esses efeitos não estão limitados ao ciberespaço, mas são usados para controlar e coordenar atividades do mundo real. E essa é a nova fronteira: sair de “sensoriar” para “reagir”, de “cognição” para “coordenação” e ação em grupo.

As discordâncias de O’Reilly com Ross começam a partir do ponto em que, segundo a formulação de Ross, o conceito de sistema nervoso social estaria se referindo apenas às ações humanas e conscientes. Conforme diz Ross, não se deve confundir esse conceito com o que ocorre nas chamadas “smart energy grids” (“grades de energia inteligentes”), no controle de tráfego usando sensores ligados na web, ou mesmo no que acontece no sistema da Planetary Skin Initiative anunciado recentemente por NASA e Cisco (um casamento de satélites, sensores terrestres e a internet para capturar, analisar e interpretar dados do meio-ambiente, com o objetivo de traduzir os dados em informações que governos e corporações possam usar para mitigar e adaptar as mudanças climáticas, e gerenciar energia e os recursos naturais de forma mais eficaz). Embora útil, tais ações de otimização automatizada não poderiam ser consideradas sociais, pois o ser humano não estaria contribuindo com dados ou agindo sobre o sistema, pelo menos de forma direta e/ou consciente. 

Por sua vez, o sistema nervoso social nos faz cientes de um contexto maior de relacionamento com a humanidade, pois, além de nos permitir encontrar soluções para problemas grandes e difíceis como controlar o espalhamento de doenças ou responder a emergências, fica cada vez mais aparente que o mecanismo de realimentação em tempo real desse veículo de comunicação expõe as ações de uns poucos poderosos para os muitos. E a vida cotidiana trivial dos muitos para a humanidade inteira.  Conforme Ross, não é mera coincidência que hoje em dia "transparência" seja uma palavra-chave tanto para os governos quanto para os negócios. Trata-se de um subproduto natural desse sistema nervoso social emergente. “O sistema nervoso social engendra um equilíbrio mais saudável de poder na sociedade, e ajuda a conectar nossas ações individuais num contexto maior de uma maneira clara.”

Embora concordando que uma rede que responde ao poder da atividade humana ao mesmo tempo que o expande seja verdadeiramente poderosa, O’Reilly lembra que essa atividade não precisa ser consciente. Na realidade, muitos dos sistemas “Web 2.0” mais bem sucedidos são derivados de dados implícitos ao invés de explícitos. Ao acrescentar um link de uma página a outra, estamos contribuindo com a Google. Ao escolher em que link clicar, ou comprar um dado produto ao invés de outro, também contribuímos. Difícil é traçar uma linha divisora entre ações deste tipo e as ações às quais Ross se refere.  

Quando fazemos uma ligação telefônica, insiste O’Reilly, de uma localização ao invés de outra, não imaginamos que estamos fornecendo nossa localização, mas nosso telefone sutilmente o faz. Também, quando acendemos uma lâmpada numa casa conectada à chamada “smart grid”, podemos achar que não estamos contribuindo com nenhuma informação, mas estaremos sim, queiramos ou não. A “smart grid” tem o papel de funcionar exatamente como um desses sistemas de sensoriamento-e-resposta, conectando pessoas e máquinas numa nova espécie  de superorganismo.

Ao final, O’Reilly reconhece que a analogia de Ross é um poderoso lembrete de que a “inteligência coletiva” não é cerebral, mas, em última análise, se torna visceral, e que ela afeta não apenas o que pensamos mas o que fazemos.

Por outro lado, o surgimento do sistema nervoso social parece exigir uma mudança importante de postura quanto à privacidade do indivíduo: de “direito inalienável” para “responsabilidade individual”. Como disse Marissa Mayer (Vice Presidente de Produto de Busca e Experiência do Usuário da Google) em recente (05/03/09) entrevista a Charlie Rose, na sociedade da informação há sempre um “toma-lá-dá-cá” com respeito à privacidade: cedemos um pouco em troca de alguma funcionalidade, e portanto o que se precisa é que haja transparência sobre quais informações as empresas estão usando e qual o benefício que se tem como retorno. 

Trata-se de opinião semelhante à de Eric Schmidt (CEO da Google), também em entrevista recente (06/03/09) a Charlie Rose, que chama a atenção para a mudança social que temos que admitir estar ocorrendo no mínimo entre as gerações mais jovens: nos tornamos infinitamente mais sociais, mas infinitamente menos privados. Independentemente de geração, deixar de fazer uso da funcionalidade (busca com Google, por exemplo) não parece ser o caminho mais prático, portanto, ao que tudo indica, a tendência é que haja uma crescente pressão para que se permaneça conectado 24 horas por dia de segunda a domingo à mente-colméia. Aqueles que não se conectam, não compartilham e não colaboram terão dificuldades tanto na vida social quanto nos negócios.

O fenômeno Twitter já nos permite comprovar isso no mundo real: conforme diz Michael Arrington (“It’s Time To Start Thinking Of Twitter As A Search Engine”, TechCrunch, 05/03/09), se algo grande está acontecendo no mundo, é possível obter informação em tempo real sobre esse acontecimento na rede do Twitter. Na verdade, o Twitter também circula informações nem tão informativas assim, e acaba se parecendo mais com uma “rede de grunhidos”, porém útil como um registro online e “escrutinável” do pensamento coletivo momentâneo. E isso pode servir à coletividade. Por exemplo, boas e más experiências com produtos e serviços circulam na rede em tempo real, a tal ponto que uma busca no Twitter pode ter o efeito de uma busca no seio do pensamento coletivo naquele exato momento sobre como está sendo avaliado o produto ou serviço. 

Arrington conta que ao receber tratamento de má qualidade de uma companhia aérea ainda no aeroporto, enviou “tweets” expressando sua insatisfação, o mesmo acontecendo quando já no hotel se deu conta de que o serviço não correspondia a sua expectativa. Para as empresas, isso significa que à medida que as pessoas falam sobre as marcas dos produtos e isso atinge o ciberespaço em tempo real, essa informação pode ser usada no mínimo para tomar prontamente atitudes que venham a trazer uma maior satisfação da clientela. Para o cidadão, isso representa uma nova atitude perante uma mera expressão de insatisfação: menos privada (se assim o desejar), porém com mais força pois pode repercutir mais longe.

Parece um caminho sem volta. Mesmo os da geração dos chamados “nativos digitais”, à medida que amadurecem, não se mostram preocupados em remover aquelas fotos indiscretas disponibilizadas na internet. O fato concreto é que, queiram ou não queiram os mais velhos, a noção de expectativa razoável de privacidade está mudando à medida em que nossas vidas estão sendo registradas no espaço cibernético. Parece que esse é o preço que devemos pagar para uma maior integração: como diz Ross, é preciso reformatar nossas identidades como parte de um todo maior interconectado.

PS: Ruy é  professor associado do Centro de Informática da UFPE e escreve para o Blog de Jamildo sempre às segundas.

Blog de Jamildo (Jornal do Commercio Online, Recife), 23/03/2009, 08:55hs, http://jc3.uol.com.br/blogs/blogjamildo/canais/artigos/2009/03/23/o_sistema_nervoso_social_43259.php


Um comentário:

Fatima Cristina (www.fccdp.com) disse...

Oi Ruy,
Como quase sempre acontece, concordo com o seu ponto apresentado. Nossas vidas e identidades tomam outra pespectiva na era das redes sociais. Com certeza este é o preço da integração digital!
BTW, falando em Twitter, você já conhece os aplicativos: http://tweetree.com/ e
http://twittervision.com/ ?
Já viu o clip "Troubles with Twitter" ? http://www.youtube.com/watch?v=PN2HAroA12w&feature=player_embedded

Um grande abraço,
Fatima