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terça-feira, 9 de junho de 2009

Startups criam Empregos

OPINIÃO / ARTIGO

Startups criam empregos

POSTADO ÀS 12:17 EM 08 DE JUNHO DE 2009

Por Ruy de Queiroz

Conforme a Wikipedia, uma “startup” (ou “start-up”) é uma empresa com uma história de operação limitada. Essas empresas, geralmente recém-criadas, estão numa fase de desenvolvimento e pesquisa por mercados, e por essa razão não têm acesso a crédito nos moldes tradicionais. É aí que entram os investidores de capital privado (investidor anjo, capitalista de aventura, etc.), que são atraídos pela relação entre risco e recompensa, além da escalabilidade de tais empresas: se, por um lado, os riscos são maiores, por outro lado, os custos de inicialização são mais baixos e o retorno no investimento é potencialmente recompensador. Startups bem sucedidas são frequentemente mais escaláveis que empresas já estabelecidas porque tipicamente crescem mais rapidamente mesmo com limitações de capital e de força de trabalho.

A empresa deixa de ser uma startup à medida que sobrevive às diversas fases de evolução, desde o período verdadeiramente inicial chamado “vale da morte” em função do altíssimo risco enfrentado, até se tornar rentável ou entrar no mercado de bolsa de valores através de um IPO (abreviação de “initial public offering”, oferta pública inicial), ou ainda deixar de existir como uma entidade independente através de uma fusão ou aquisição por empresa maior. O termo é usualmente associado a empresas de tecnologia com alto potencial de crescimento, e se tornou popular internacionalmente durante o período do estouro da bolha ponto-com quando um grande número de empresas de internet foram fundadas. A maior concentração da atividade de criação de startups está localizada no Vale do Silício, uma região no norte da Califórnia em torno da Stanford University.

Em meio a um recorde de desemprego, um estudo de Janeiro passado do US Census Bureau financiado pela Ewing Marion Kauffman Foundation já mostrava que empresas startups são um principal ator na criação de empregos. As “Estatísticas de Dinâmica de Negócios” (Business Dynamic Statistics) indicam que enquanto as startups de negócios diminuem levemente na maioria das baixas cíclicas, tais empresas permanecem robustas mesmo na mais severa recessão durante o mesmo período de amostragem (no início dos anos 1980s).

Os dados das BDS mostram que o emprego contabilizado ao setor de empresas privadas startups dos EUA durante o período 1980-2005 foi de cerca de 3% por ano. Embora ainda uma pequena fração do total de empregos, esses postos de startups refletem novos empregos, que é uma grande percentagem comparada com a média anual líquida de crescimento de empregos no setor privado nos EUA para o mesmo período (cerca de 1,8%). Tal padrão implica que, se forem excluídos os empregos das novas empresas, a taxa líquida de crescimento do emprego nos EUA é negativa na média. Em outras palavras, o relatório indica que, de 1980 a 2008, as startups, definidas nesse caso como empresas com menos de 5 anos, foram responsáveis por todo o crescimento líquido de empregos nos EUA.

Um relatório mais recente da Kauffman (“High Growth and Failure of Young Firms”, 07/04/09) mostra que empresas muito jovens (um ano de existência) apresentam uma taxa de crescimento do emprego de cerca de 15%, caso sobrevivam, mas cerca de 20% dos empregos são perdidos devido ao fechamento de negócios durante o primeiro ano. Empresas mais maduras (29 anos ou mais), por outro lado, criam empregos a uma taxa de cerca de 4%, e têm uma taxa semelhante de perda de empregos devido ao fechamento. Um dado interessante é que, entre as empresas sobreviventes, as taxas médias de crescimento do emprego diminuem com a idade da empresa.

Segundo Robert Litan, vice-presidente de Pesquisa e Política da Kauffman Foundation, “como empresas empreendedoras geralmente assumem riscos maiores e têm o potencial de criação de empregos que corresponde a crescimento rápido, os dados revelam a necessidade de que se assegure um ambiente que permita aos empreendedores acesso a financiamento, orientação e outros recursos que os ajudará a sobreviver e progredir.” E foi nesse espírito que, em palestra recente ao Programa de Empreendedorismo da Stanford University (“Emerging Opportunities in a Post IT Marketplace”, 11/02/09), Thomas Siebel lembrou que no perído de 1980 a 2000, a indústria da tecnologia da informação, impulsionada por uma lei tecnológica (“Lei de Moore”) e uma lei jurídica (“Bayh-Dole Act”), experimentou um crescimento anual sem precedentes de 17%. Naquele período vigoravam nos EUA políticas públicas extremamente favoráveis a investimentos de risco. “Risco era um problema dos negócios, não um anátema.”

A Lei de Moore (“o número de transistores que podem ser colocados a custo razoável num circuito integrado cresce exponencialmente, duplicando aproximadamente a cada dois anos”) levou a um ambiente em que as oportunidades de negócios pareciam não ter limite. Mudanças na tecnologia eram substituições totais, ao invés de incrementais, o que significava que todo cliente tinha que comprar e continuar comprando ou se ver ficando para trás na obsolescência.

A Lei Bayh-Dole de 1980 permitiu que as universidades poderiam escolher reter o título de invenções desenvolvidos sob programas com fundos federais, desde que (1) o produto resultante fosse substancialmente produzido nos EUA, (2) ao comercializar uma invenção, a universidade deveria dar preferência a empresas pequenas (menos de 500 empregados), (3) a universidade deveria compartilhar com o(s) inventor(es) uma parte da receita recebida do licenceamento. E o resultado foi incentivo à inovação, empreendedorismo, a absorção de conceitos amplos tais como propriedade do empregado de base ampla, e um ambiente regulatório largamente favorável aos negócios.

Mas, segundo aponta o relatório, e é repetido num artigo do Wall Street Journal (“Start-Ups Create - And Lose - The Most Jobs”, 07/04/09), em termos de crescimento e sobrevivência, empresas jovens estão melhores e piores que empresas mais maduras. E esse padrão “sobe e desce” enfatiza a natureza de tentativa e erro das empresas jovens que parece ser uma característica inerente à dinâmica de negócios nos EUA.

Em artigo recente no portal VentureBeat.com (“StartUpHire says venture-backed startups really do create Jobs”, 20/05/09), Anthony Ha revela alguns números representativos da oferta de empregos das startups: o portal StartUpHire diz que atualmente lista mais de 10.000 empregos em 2.500 empresas. Por sua vez, o portal Startuply lista 1.037 empregos em 957 startups. Geograficamente, 37% desses empregos estão na Califórnia, e em termos do tipo de indústria, 31% estão em software, sem falar nos 18% em “IT Services” (“serviços de tecnologia da informação”. Os números confirmam o papel do Vale do Silício e da Stanford University no espetacular desenvolvimento de novas soluções tecnológicas, sobretudo na área da tecnologia da informação.

Conforme o portal do “Office for Technology Licensing” (OTL) de Stanford, o mundo pensa no Vale do Silício como o um dos maiores centros de atividade de start-up e que a comunidade de Stanford desempenha um papel importante, e isso é verdadeiro pois a mair parte das startups "Stanford" são criadas por ex-alunos de Stanford que se graduam e se tornam empreendedores. Embora a grande maioria dessas empresas sejam formadas sem o envolvimento de Stanford, muitas brotaram da Universidade pelas mãos de professores e estudantes, tomando por base tecnologias criadas no campus.

Desde a criação do OTL em 1970, Stanford registra um histórico invejável: 546 invenções renderam royalties; das 7500 revelações (“disclosures”) de invenção, 2814 estão ativas, e 36 delas renderam mais de US100 mil em royalties, das quais 3 ultrapassaram a marca dos US$1 milhão. No período 2007–2008, o OTL permitiu que Stanford recebesse mais de US$62,5 milhões em receita bruta de royalties de 344 tecnologias. Nesse mesmo período o OTL concluiu 107 novas licenças e avaliou 430 novas descrições de invenção em 2008.

O trecho de uma palestra de Larry Page (co-fundador da Google) proferida em 2002 no Programa de Empreendedorismo de Stanford traduz bem a relação entre conhecimento e empreendimento que predomina em Stanford: “A ciência como inspiração”. Page diz que “há tremendas oportunidades para se usar pesquisa básica e boas idéias que você ou outras pessoas tenham.” Em trecho de documentário sobre Stanford e o “Novo Renascimento” (“Silicon Valley: A 100 Year Renaissance”, 1998), o ex-reitor e hoje Editor da revista Science, Donald Kennedy, declara que “Stanford sempre teve afeição por aplicações assim como por teoria”.

Nesse espírito e em nota triste, porém emblemática, registre-se aqui que Rajeev Motwani, ex-orientador de doutorado de Larry Page e Sergey Brin (co-fundadores da Google), Professor de Ciência da Computação de Stanford, morreu em 05/06/2009 num acidente na piscina em sua casa na Califórnia. Motwani era muito conhecido por sua pesquisa em Computação Teórica, a ponto de em 2001 ter sido um dos agraciados com o prestigioso Prêmio Gödel, além do Okawa Foundation Research Award e da Arthur Sloan Research Fellowship.

Foi também um ávido investidor anjo, um dos primeiros investidores na Paypal, um consultor especial da Sequoia Captial, e tinha fundado ou ajudado a fundar várias startups bem-sucedidas que saíram de Stanford, incluindo Google, e outras ainda em fase de desenvolvimento como TokBox, Tapulous, Flowgram, Anchor Intelligence, Simply Hired, e Kaboodle. Atuava como membro do conselho de diretores de diversas startups, tais como Mimosa Systems, Adchemy, Baynote, Vuclip e Stanford Student Enterprises, além de ser membro ativo da Business Association of Stanford Engineering Students (BASES). Em seu blog, Sergey Brin declara que “desde que a Google emergiu de Stanford, Rajeev permaneceu um amigo e conselheiro da mesma forma que foi com muitas pessoas e startups desde então.”

Tudo indica que o equilíbrio entre a busca do conhecimento e a sua transformação em empreendimento é o grande segredo do sucesso de Stanford. Sem maniqueísmos do tipo “a academia é distanciada da realidade”, ou “o mercado não se interessa pela descoberta do conhecimento”, Stanford segue adiante sem sucumbir ao espírito do dono da galinha dos ovos de ouro. Oxalá exemplo tão nobre seja seguido por muitos!

PS: Ruy é professor associado do Centro de Informática da UFPE e escreve para o Blog sempre às segundas.

Blog de Jamildo (Jornal do Commercio Online, Recife), 08/06/2009, 12:17hs, http://jc3.uol.com.br/blogs/blogjamildo/canais/artigos/2009/06/08/startups_criam_empregos_47967.php

Investimentos e Notícias (São Paulo), 08/06/2009, 07:30hs, http://investimentosenoticias.com.br/IN_News.aspx?parms=2528369,408,100,3

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Academia, empreendimento e inovação tecnológica

Academia, empreendimento e inovação tecnológica

Ruy J.G.B. de Queiroz 

Professor associado, Centro de Informática da UFPE 


Tão profundas são as transformações resultantes dos avanços tecnológicos que não parece exagero chamar esse processo de novo Renascimento. Tampouco seria injusto atribuir a Stanford o papel de "Nova Florença". Em 1º de Outubro último foram completados 117 anos de serviços prestados (embora fundada oficialmente em 1885, a Leland Stanford Jr University abriu suas portas em 01/10/1891). Em Cities of Knowledge: Cold War Science and the Search for the Next Silicon Valley (Princeton U Press, 2004), referindo-se a um prédio construído em Goa (India) no estilo arquitetônico hispânico predominante em Stanford para abrigar uma empresa de alta tecnologia, Margaret O'Mara diz que "todo mundo quer ser não apenas um outro Vale do Silício, mas também se parecer com o Vale do Silício". Estilo arquitetônico à parte, um tanto original é o princípio norteador de Stanford: ao invés da referência direta à procura pela "verdade" (Veritas, em latim, é o slogan de Harvard), a busca pelo conhecimento como busca da liberdade vem estampada no seu motto, "Die Luft der Freiheit Weht", embora que numa língua estrangeira ainda viva. A idéia de usar tal motto veio de David Starr Jordan, primeiro presidente do "rancho do faroeste transformado em Universidade" (com 33Km2 de área e 43.000 árvores, Stanford é conhecida como "A Fazenda"), que se inspirou na reação do poeta alemão Ulrich von Hutten revoltado com a prisão de Martin Lutero: "vejam que os ventos da liberdade estão soprando!" (videtis illam spirare libertatis auram, em latim). Não sem resistência, até do conselho de curadores (que preferiram o slogan "Semper Virens", significando "sempre verdejante", nome científico da espécie de sequóia comum naquela região que pode viver mais de 2000 anos, e é a criatura viva mais alta do planeta), Jordan buscou no sentimento mais profundo de fé na primazia do indivíduo a força maior para imprimir a impressionante marca da harmonia entre o saber e a liberdade. Stanford veio a revelar toda a sua vocação de Nova Florença a partir dos anos 1970s com a chamada "cultura das start-up's": criação de empresa numa garagem, para explorar uma idéia maluca utilizando tecnologia. 

Diversas têm sido as tentativas de reprodução do ambiente criado no Vale do Silício. Em Maio último, numa palestra ao programa de empreendedorismo de Stanford, Beth Seidenberg (da grande empresa de venture capital KPCB) diz que "o ambiente em torno de Stanford é diferente de qualquer outro que eu já vi e que já foi criado por quem quer que seja. (...) Boston e San Diego podem até reivindicar a disponibilidade de infra-estrutura [para inovação], mas o Vale do Silício é verdadeiramente o eixo da inovação tecnológica". Os fatos estão aí para comprovar, pois brotaram n'A Fazenda: Google, Yahoo, Hewlett-Packard, YouTube, Sun, Cisco, eBay, PayPal, Electronic Arts, Silicon Graphics, Netflix, Nvidia, VMWare, Orkut, Dolby. Através de um simples motto invocando a liberdade do pensar, Jordan enraizou o sentimento de fé na primazia do indivíduo que parece ter protegido Stanford de sucumbir ao arquétipo da fábula da galinha dos ovos de ouro. E esse sentimento persiste nos seus ex-alunos sob forma de doações generosas: US$400 mi de William Hewlett (HP), US$100 mi de Phil Knight (Nike), US$75 mi de Jerry Yang (Yahoo), US$33 mi de Lorry Lokey (Business Wire), US$30 mi de Jen-Hsun Huang (Nvidia). Dentre os programas de arrecadação de doações de ex-alunos e simpatizantes, o The Stanford Challenge, lançado em Outubro de 2006, já se encontra bem próximo à meta traçada para 2011 (US$4,3 bi): os números de 14/10/08 indicam uma arrecadação parcial de US$3,9 bi. Difícil imaginar forma mais explícita de respeito e retribuição à alma mater.


terça-feira, 7 de outubro de 2008

A ciência como inspiração

A ciência como inspiraçãoArtigo do leitor Ruy J.G.B. de Queiroz

Completa exatamente dez anos de fundação, em 1º de setembro de 2008, a empresa cujo nome se transformou em verbo "universal": "se você nunca Googlou, provavelmente não está encontrando nada do que deseja online". Assim começa a descrição do perfil financeiro da Google Inc na AOL. Larry Page e Sergey Brin fundaram a Google quando ainda faziam doutorado em Stanford. Chegou um momento em que o negócio cresceu demais para ser administrado a partir do dormitório da universidade, e aí entrou em cena um professor que lhes passou um cheque de US$ 100 mil. No início, Larry e Sergey ainda tentaram licenciar a Google a outras empresas, pois queriam concluir seus PhDs, mas ninguém se interessou. Consta que a Google foi iniciada no desespero: eles não tiveram outra opção senão começar tudo sozinhos.

Segundo Judy Estrin, em "Closing the Innovation Gap" (McGraw-Hill, 2008), para que a Google viesse a ser a potência tecnológica que é hoje foi necessário mais que transformar pesquisa acadêmica sobre algoritmos de busca num espertíssimo engenho de busca para a internet. A empresa também teve que desenvolver um modelo de negócio que lhe daria uma sólida fonte de receita no longo prazo. Os programas AdWords e AdSense - que exibem discretamente anúncios pagos ao lado dos resultados do algoritmo de busca - se revelaram tão inovadores e eficazes quanto o próprio engenho de busca.

Em palestra de 2002, conjunta com o CEO Eric Schmitt, disponibilizada no portal de educação de empreendedores em tecnologia de Stanford, Larry Page revela que pesquisa básica e boas idéias são a chave para se criar tremendas oportunidades no mercado de tecnologia. Até aí, nenhuma novidade. Mas não demora muito para que o diferencial venha à tona: "uma quantidade enorme de novos conhecimentos está sendo criada o tempo todo, e muitos podem ser utilizados como fundamento para inovação". E vai mais adiante, mostrando um exemplo no qual um projeto do biólogo Robert Full (Berkeley) resultou num "robô-barata": observando que a barata vence incríveis obstáculos somente pelo fato de que suas pernas se comportam como molas, e que mesmo com pouca "inteligência" ultrapassa obstáculos difíceis, foi proposto um robô no qual a inteligência estaria no "design" e não no "cérebro" do bicho.

O título desse trecho específico da palestra é bem sugestivo: "Science as Inspiration". E a explicação é bem simples: isso é algo que as empresas freqüentemente deixam passar, e que podem realmente significar grande coisa, e o quão enormes são as oportunidades de se chegar ao sucesso em empreendimentos. "Não há como exagerar nesse ponto; há tremendas oportunidades para se usar pesquisa básica e boas idéias que você ou outras pessoas tenham. (.) Meu ponto é que existe um monte de grandes inovações por aí, muito conhecimento novo que surge o tempo todo, e, se você se depara com uma dessas coisas, e a utiliza como fundamento para uma empresa ou para inovação empreendedora em geral, você vai estar numa posição muito mais forte em termos de negócios. E esse é um bom lugar para se posicionar, se você está começando uma empresa".

Antes de Larry e Sergey, muitos foram os pioneiros de Stanford: em 1969, o Stanford Artificial Intelligence Lab, fundado por John McCarthy, tornou-se um dos primeiros nós da ARPAnet, a precursora da internet. Cinco anos depois, Vinton Cerf ajudou a desenvolver o protocolo TCP, e em 1984 Leonard Bosack e a aluna de economia Sandy Lerner fundaram a Cisco. Dez anos mais tarde, Jerry Yang e David Filo, doutorandos em engenharia elétrica, iniciaram a Yahoo!

Tendo sido fundada em 1891, Stanford somente veio a revelar ao mundo sua vocação de "transformar o mundo através da inovação tecnológica" a partir dos anos 1970 com a simples idéia de estimular a criação de uma "empresa montada numa garagem, para explorar uma idéia maluca utilizando tecnologia" (Bill Hewlett e David Packard abrindo o caminho com a HP no final dos anos 1930). Hoje, muitas são as iniciativas de tentativa de reprodução do ambiente criado no "Vale do Silício", seja no próprio território americano (Seattle, por exemplo), seja na Europa ou na Ásia. Todavia, conforme Ron Conway (Angel Investors LP, escolhido como número 6 na lista "Midas" de maiores "dealmakers" da Forbes Magazine em 2006) e Mike Mapels Jr (Maples Investments) declaram numa palestra intitulada "Silicon Valley: Ground Zero for the Deal", para o Stanford University's Entrepreneurship Corner, ali o ecossistema de idéias, empreendedorismo, e investimento de capital de risco é tão poderoso que nenhuma outra região sequer chega próximo: trace um raio de 40 km em torno da Stanford University e aí estão 75% dos casos de sucesso da indústria do chamado "venture capital".

O fato concreto é que nada menos que Google, Yahoo, Hewlett-Packard, YouTube, Sun, Cisco, eBay, PayPal, Orkut, Electronic Arts, Dolby, e outros ícones da sociedade da informação brotaram no campus de Stanford. Nem mesmo Harvard (aí incluindo o MIT), que em quase todos os sistemas de pontuação acadêmica se põe à frente de Stanford, e com o dobro do endowment (US$ 35 bi contra US$ 17 bi), tem registro minimamente comparável de empreendimentos tecnológicos transformadores já consolidados.

Embora a capacidade empreendedora não tenha sido fator de sucesso acadêmico em Stanford, o espírito de respeito mútuo entre academia e empreendimento que tem prevalecido ali é reflexo do desejo de fazer impacto em escala global. Em março de 2006, por ocasião da cerimônia de celebração dos 40 anos de ciência da computação em Stanford, Bill Dally (chefe do depto. de computação) dizia: "É um equilíbrio delicado, pois você não quer que valores acadêmicos sejam comprometidos por valores corporativos (...). Uma universidade é para criar conhecimento, e uma empresa é para criar valor. Acho que Stanford encontrou um equilíbrio apropriado".

Vencer o impasse entre a desconfiança de cada lado (acadêmicos só pensam no conhecimento, empreendedores só pensam no lucro) deve ser encarado como um desafio a ser constantemente perseguido, sobretudo nos países emergentes. A China parece ter entendido bem a lição. Rebecca Fannin, em "Silicon Dragon: How China is Winning the Tech Race" (McGraw-Hill, 2007), faz um alerta para velocidade com que os chineses caminham para tomar a frente no setor de inovação tecnológica: "a China tem o mercado de capital empreendedor que mais cresce no mundo e também o maior crescimento no número de novos pedidos de registro de patente". E lembra que a nação que nos deu o ábaco, a seda, o papel e a pólvora já está em oitavo lugar no ranking de novas patentes, caminhando rapidamente para assumir o terceiro lugar, atrás apenas dos EUA e do Japão.

Pesquisa científica esperta, desenvolvimento, e aplicação em inovação com base em conhecimento científico, tudo isso tem desempenhado um papel fundamental no sucesso da Google, e por que não aprender e procurar assimilar bem o exemplo?


O Globo Online, 02/09/2008, http://oglobo.globo.com/opiniao/mat/2008/09/02/a_ciencia_como_inspiracao-548050565.asp